Entrevista: «Para gerar vida é necessário passar sempre pela morte» – Padre Manuel Marques

A Páscoa é a maior festa do calendário cristão, na qual recordamos a paixão, morte e ressurreição de Jesus. O padre Manuel Marques explicou-nos o significado da Páscoa, dizendo que para gerar vida é necessário passar sempre pela “morte”. À semelhança dos pais que, com a sua entrega, trabalhos e dedicação “morrem” um pouco todos os dias, para que os filhos tenham uma vida melhor.

O Padre Manuel Marques é pároco de Miranda do Douro. (HA)

Terra de Miranda – Notícias: Numa entrevista recente, o bispo da diocese de Bragança-Miranda, Dom José Cordeiro, referiu-se a este tempo de pandemia, que ainda estamos a viver, como um grande exercício de penitência e de conversão. Passado um ano a viver nesta situação, o que podemos aprender com a pandemia?

Padre Manuel Marques: Era suposto que esta situação pandémica nos levasse a refletir sobre o nosso estilo de vida. Mas aquilo que verificamos é que muita gente está desejosa que esta situação alivie, para voltar ao mesmo. Recordo que, quando a pandemia começou e obrigou o mundo a parar, houve cidades e zonas do globo que beneficiaram muito com isso. Por exemplo, ocorreu uma assinalável despoluição do ar, devido à paragem das grandes empresas de aviação, que por sinal, são a primeira causa da poluição atmosférica. Por isso, penso que temos que abdicar de um modo de vida desenfreado e consumista para enveredarmos por um estilo de vida mais sóbrio e ecológico, como o Papa Francisco nos recomenda na encíclica ‘Laudato Si’. O Santo Padre tem feito um apelo constante a uma mudança global para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas. Mas para haver uma verdadeira mudança tem que haver uma verdadeira conversão individual e coletiva.

“Com o confinamento ocorreu uma assinalável despoluição do ar devido à paragem das grandes empresas de aviação, que é importante dizer, são a primeira causa da poluição atmosférica.”

T.M.N.: O Padre Manuel Marques também foi infetado com o coronavírus. Como viveu essa contrariedade?

P.M.M: Felizmente, vivi bem. O teste deu positivo, mas nunca tive sintomas. Estive dez dias de quarentena. E durante esse período recebi um testemunho maravilhoso e comovente da parte dos paroquianos. Estando eu em casa, as pessoas não deixaram que me faltasse nada. Traziam-me os alimentos que precisava para eu cozinhar e houve quem me trouxesse refeições já cozinhadas. Muitas vezes, abria a porta e tinha ofertas para recolher. Telefonavam-me constantemente, para saber se eu estava bem. Esta experiência levou-me a constatar que quando nos damos, acabamos por receber muito mais. Fiquei muito feliz com a atenção e o carinho recebido.

T.M.N.: Estamos a viver a Semana Santa e a celebrar os a Paixão e Morte de Jesus. O que é que Jesus nos quis ensinar com Sua entrega até à morte?

P.M.M: Jesus quis ensinar-nos que o amor de Deus por nós é tão grande, que vai ao ponto de dar o Seu próprio Filho para nos salvar, isto é, para nos ensinar a viver e a amar. Por isso, se seguirmos os passos de Cristo, se vivermos ao seu estilo, numa atitude de serviço e doação aos outros vamos ser felizes. Mas, se nos limitarmos a tratar só da nossa vidinha e dos nossos interesses, somos uns egoístas e não servimos para nada. Felizmente, com a pandemia foi possível ver tantas pessoas de boa vontade, cristãos e não cristãos, a ir ao encontro de pessoas e das famílias que passam por maiores dificuldades. Como cristãos, temos o dever de agir sempre assim.

“Se seguirmos os passos de Cristo, se vivermos ao seu estilo, numa atitude de serviço e doação aos outros, vamos ser felizes.”

T.M.N.: Porque razão, a Páscoa é considerada a maior festa do calendário cristão?

P.M.M: A Páscoa é a maior festa cristã, porque se Jesus não tivesse passado pela Paixão, Morte e Ressurreição, nós não estaríamos aqui, a conversar sobre isso. Jesus salvou-nos, não só pelo Seu nascimento e por ter vivido entre nós. Mas também pela Sua entrega no martírio e na morte. Para gerar vida é necessário passar sempre pela morte. Jesus explicou-nos isso ao dizer: “Se o grão de trigo lançado à terra não morrer, não dá fruto, não dá vida nova!”. Faço uma analogia com os meus trabalhos na horta: na altura de arrancar as batatas, de vez em quando, aparecia uma batateira sem batatas. Após cavar um pouco mais, encontrava a batata que lá tinha plantado, dura, empedernida, feia e ficava a pensar na parábola de Jesus. E dizia para comigo: “Jesus também percebia de agricultura! Esta batata não quis morrer e por isso não deu vida nova, não deu batatas”. O mesmo aconteceu connosco. Para nós termos vida, e vida em abundância, Jesus, teve que passar pela paixão e morte. Penso, também nos pais, que quando têm filhos, entregam-se, trabalham, dedicam-se, ou seja, “morrem” um pouco todos os dias, para que os filhos tenham uma vida melhor.

“Penso, também nos pais, que quando têm filhos, entregam-se, trabalham, dedicam-se, ou seja, ‘morrem’ um pouco todos os dias, para que os filhos tenham uma vida melhor.”

T.M.N.: Páscoa significa passagem. Inicialmente, foi a passagem do povo judeu da escravidão no Egipto para a liberdade, através da travessia do deserto, para a terra prometida. Com Jesus, a Páscoa passa a ser libertação de todas as escravidões, do pecado e da morte. O que é a Páscoa, afinal?

P.M.M: A Páscoa tem duas etapas. A primeira etapa é a tal passagem ou libertação do povo judeu do Egipto. É uma libertação física. Mas esta liberdade teve um preço, que o povo judeu não soube interpretar imediatamente. O viver em liberdade implica corresponsabilidade. Todos nós precisamos ser conscientes dos nossos atos e das suas consequências. Na passagem do Egipto para a Terra Prometida, Moisés, passou por muitas dificuldades para instruir e guiar aquela gente.

A outra etapa da Páscoa foi realizada ou completada por Jesus. Todos nós estamos sujeitos a cometer erros, a desenvolver vícios, até a cometer crimes, ou seja, a pecar. A passagem ou, liberdade, que Jesus nos trouxe foi da ordem espiritual. Quando conhecemos Jesus e aprendemos com o Seu exemplo, tornamo-nos verdadeiramente livres. E felizes!

“À partida, todos nós estamos sujeitos a cometer erros, a desenvolver vícios e até a cometer crimes, ou seja, a pecar. Jesus, com o Seu exemplo, veio ensinar-nos a viver e a libertarmo-nos de tudo isso.”

T.M.N.: Diz-se que ao longo da vida, cada um de nós está em permanente processo de ressurreição, pois à medida que vamos morrendo para o nosso egoísmo, vamos passando para Deus, até passarmos totalmente para Ele, através desse momento a que chamamos morte física. O egoísmo, o só pensar em nós mesmos, é a raiz de todos os males?

P.M.M: Sim, o egoísmo é a raiz do mal. Custa-nos muito entender que é dando-nos que recebemos. A nossa maneira de pensar é movida pela lógica do “toma lá, dá cá”. Até a própria relação com Deus é uma relação comercial ou contratual. Vamos à Igreja como vamos ao supermercado, pagamos e pronto! E não pode ser! Em Igreja, temos que aprender a darmo-nos gratuitamente uns aos outros. A construir relações, gratuitas, de amor uns pelos outros, à maneira de Jesus Cristo. E até a dar a vida uns pelos outros, como fez Jesus.

“Em Igreja, temos que aprender a darmo-nos, gratuitamente, uns aos outros. A construir relações, gratuitas, de amor uns pelos outros, à maneira de Jesus Cristo. E até a dar a vida uns pelos outros, como fez Jesus.”

T.M.N.: Nas Suas aparições como ressuscitado, Jesus, não é reconhecido de imediato, porquê?

P.M.M: É importante explicar que a ressurreição não indica regresso a este mundo de carne e osso mas entrada no Outro. Nas suas aparições, Jesus, já não sendo deste mundo comunica-se connosco. Por exemplo, nas aparições de Jesus aos apóstolos, eles só O reconhecem, através de sinais. Como, no encontro com os discípulos de Emaús. Estes dois discípulos iam desanimados e quando Jesus se aproxima e começa a falar com eles, não O reconhecem de imediato. Só à noite, quando Jesus repete os gestos da Última Ceia, com o partir do pão, é que O reconhecem. E a partir daí, entendem a nova Presença ou Vida de Jesus nas suas vidas. Os discípulos voltam a estar animados, isto é, cheios de ânimo (alegria) e regressam a Jerusalém para dar a boa notícia aos apóstolos. A Ressurreição é pois esta vida nova de Jesus. Já no monte Tabor, Jesus transfigura-se diante dos três apóstolos, para dar-lhes a conhecer como iria ser após a Sua Ressurreição. É o chamado Corpo Glorioso.

“É importante explicar que a ressurreição não indica regresso a este mundo de carne e osso mas entrada no Outro. Nas Suas aparições, Jesus, já não sendo deste mundo comunicou-se com os apóstolos. Mas nestas aparições, os apóstolos, só O reconhecem, através de sinais.”

T.M.N.: A Páscoa do ano passado foi celebrada em casa. Neste ano, as celebrações da Semana Santa vão poder ser celebradas com a participação da assembleia. Em Miranda do Douro, como vamos celebrar o Tríduo Pascal?

P.M.M: Tradicionalmente, quem organiza as celebrações da Semana Santa, em Miranda do Douro, é a Santa Casa da Misericórdia. este ano, todas as celebrações vão ser realizadas na Sé Concatedral. E o programa é o seguinte:

  • Dia 31 de março, Quarta-feira, às 21h, Eucaristia, em honra do Divino Senhor da Misericórdia;
  • Dia 1 de abril, Quinta-feira- Santa, às 21h, Missa da Ceia do Senhor, este ano sem o ritual do lava-pés;
  • Dia 2 de abril, Sexta- Santa, às 21h, Adoração da Cruz Redentora e o Enterro do Senhor, dentro da Sé Concatedral;
  • Dia 3 de abril, Sábado Santo, às 9h30, Laudes, na Capela de Santa Cruz. E Vigília Pascal em Genísio.
  • Dia 4 de abril, Domingo, às 11h00, na Sé Concatedral, vamos celebrar a Missa de Páscoa da Ressurreição do Senhor.

Perfil:

Padre Manuel Marques, nasceu no dia de São Miguel, Arcanjo, a 29 de setembro, em Vilarinhos das Azenhas, concelho de Vila Flor. Começou os estudos nos Claretianos do Imaculado Coração de Maria, nos seminários dos Carvalhos, em Fátima e no Cacém. Foi lá que aprendeu vários ofícios, como cozinhar, cultivar a horta, também aprendeu a ser alfaiate e sapateiro. Mais, tarde, decidiu escrever ao então Bispo da diocese de Bragança-Miranda, Dom Manuel Jesus Pereira, a perguntar se o aceitava no Seminário, em Bragança. O pedido foi aceite e ali concluiu o 12º ano. Depois, foi estudar para a Universidade Católica, em Lisboa. No decorrer dos estudos superiores viveu nos seminários do Patriarcado, primeiro em Almada e depois nos Olivais. Foi ordenado sacerdote, no dia 12 de setembro de 1982. No primeiro ano como padre, trabalhou no Seminário de São José, em Bragança, e simultaneamente assumiu as paróquias de Baçal, Sacoias e Vale de Lamas. Em 1983, veio trabalhar para a Terra de Miranda e foi pastor nas paróquias de Ifanes, Paradela, Constantim, Cicouro e São Martinho. Recordou que nesse tempo, as igrejas destas aldeias raianas enchiam-se de gente. Uma realidade que contrasta muito com a atualidade. De 1989 a 1998, foi chamado para trabalhar na formação dos jovens, no Seminário, em Vinhais. Seguiu-se depois outra missão, como pároco em Lamas de Podence, (Macedo de Cavaleiros), onde esteve outros dez anos. Em 2008, regressou à Terra de Miranda, para assumir as paróquias de Miranda do Douro, Ifanes, Paradela, Constantim, Cicouro, São Martinho, Especiosa, Genísio, Malhadas e Póvoa. Foi um regresso a casa!

HA

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