Porto: Cooperativa Árvore acolhe “Mês do Mirandês”
De 6 de junho até 4 de julho, a Cooperativa Árvore, no Porto, inicia o “Mês do Mirandês”, um evento multidisciplinar com exposições, mostra de trabalhos e uma conferência dedicada à preservação e atualidade da língua e cultura da Terra de Miranda.

A cooperativa de atividades artísticas indica que o “Mês do Mirandês” pretende afirmar-se como um espaço de encontro entre a tradição e a contemporaneidade, onde a língua mirandesa surge não apenas como herança cultural, mas também como instrumento de criação artística, pensamento e afirmação identitária.
“Com esta iniciativa, a Cooperativa Árvore pretende aproximar os públicos urbanos da realidade linguística e cultural da Terra de Miranda, reforçando assim a valorização da diversidade cultural em Portugal”, justificam.
O mirandês é a segunda língua oficial de Portugal, sendo falada por cerca de 3 mil pessoas, principalmente no concelho de Miranda do Douro.
“A língua mirandesa pertence ao ramo asturo-leonês, que evoluiu do latim vulgar e possui características gramaticais próprias que a diferenciam tanto do português como do castelhano”, explicam.
Em 1999, a língua mirandesa foi oficialmente reconhecida pela Assembleia da República, considerado um marco histórico que permitiu a sua regulamentação e introdução nos currículos escolares da região. No entanto, apesar do estatuto oficial, a língua mirandesa continua a enfrentar sérios desafios na sua preservação.
Com idêntico propósito de preservar e divulgar a língua, a programação do “Mês do Mirandês” inclui a exposição “PE(r)SSONA”, da artista Balbina Mendes.
“A exposição “PE(r)SSONA” é uma reflexão contemporânea sobre identidade, pertença e memória cultural, inspirada na cultura mirandesa. Através de diferentes técnicas e materiais, como óleo, aguarela, cerâmica, serigrafia e plexiglass, a artista constrói uma linguagem visual marcada por máscaras, rostos e símbolos que exploram a relação entre o indivíduo e a coletividade. As obras evocam tradições ancestrais e questionam a forma como a identidade é construída, ocultada e partilhada”, descrevem.
O trabalho de Balbina Mendes revisita a cultura mirandesa como um espaço de mistério, autenticidade e reinvenção contínua da tradição.
“Entre texturas, cores e contrastes, a artista cria um universo simbólico onde a memória, a história e a regionalidade se cruzam, dando voz a uma herança cultural que permanece viva e em constante transformação”, escrevem.
Na sala 2 da cooperativa Árvore, está outra exposição “No Piso Térreo de um Clarão”, de Marco Silva, inspirada na ideia do jardim privado como espaço de contemplação e reflexão.
“Através da pintura e da sobreposição de luz, gesto e matéria, as obras criam um ambiente crepuscular onde o ser se revela para além da imagem. Entre luz e escuridão, estas pinturas suspendem o tempo e evocam um espaço de transição, incerteza e revelação interior”, pode ler-se.
O Mês do Mirandês também dá destaque aos trabalhos realizados pelos alunos dos Cursos Livres, evidenciando a diversidade de práticas e experiências artísticas promovidas pela Árvore.
A 27 de junho, acontece um dos momentos centrais da programação do “Mês do Mirandês”, com a conferência, às 16h00, “Terra de Miranda: património e identidade, hoje ( Tierra de Miranda: patrimonho i eidentidade, hoije)” – dedicada à preservação e à atualidade da língua e cultura mirandesas.
A conferência conta com a participação de Alfredo Cameirão, Ana Afonso, José Meirinhos e Óscar Afonso, promovendo um espaço de reflexão sobre património, território e identidade cultural.
• Alfredo Cameirão é o comissário da Estrutura de Missão para a Promoção da Língua Mirandesa (organismo recém-criado na dependência do Ministério da Cultura), tem um historial de envolvimento na promoção e valorização da língua e cultura mirandesas, designadamente enquanto professor, escritor e tradutor.
• Ana Afonso é professora e tradutora de mirandês, tem desenvolvido um percurso académico na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e um importante trabalho de apoio ao desenvolvimento da Biquipédia, l’anciclopédia lhibre an lhéngua mirandesa (a Wikipédia em mirandês).
• José Meirinhos é professor de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tem um longo percurso de promoção e valorização da língua e cultura mirandesas, designadamente em instituições como a Frauga - Associação para o Desenvolvimento Integrado de Picote.
• Óscar Afonso é diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, tem levado a cabo análises económicas e estratégicas visando o melhor aproveitamento dos recursos naturais da região, esteve envolvido no Movimento Cultural da Terra de Miranda e na autarquia de Miranda do Douro
A Cooperativa Árvore, criada em 1963, no Porto, tem como missão a produção, divulgação e comercialização de obras artísticas e editoriaisa, assim como a formação e informação dos Cooperadores e do público em geral, na área das Artes Visuais, Estudos de Arte e em outras áreas da criação e do saber.
HA