Entrevista: «Decidi ficar para tratar destas vinhas velhas» – Aline Domingues

A vindima é uma das tradições agrícolas mais antigas do nosso país, que é marcada por muito trabalho, mas também pela alegria e a festa. Na aldeia de Uva, no concelho de Vimioso, vive Aldine Domingues, uma jovem luso-francesa que decidiu mudar-se para o planalto mirandês, para aqui se dedicar à viticultura.

Aline Domingues decidiu instalar-se no planalto mirandês para se dedicar à viticultura. (HA)

Terra de Miranda – Notícias: Há quanto tempo se dedica ao cultivo da vinha e à produção de vinho?

Aline Domingues: Comecei este projeto em 2017, quando decidi vir para Portugal, com o propósito de desenvolver um projeto vitícola na região do Douro. Mas depois, em conversa com o meu avô, apercebi-me do abandono das vinhas no planalto mirandês, cuja causa é o despovoamento e o facto de as pessoas idosas já não poderem cuidar das vinhas.

T.M.N: Que trabalhos exige a vinha ao longo do ano?

A.D.: Eu opto por tratar das vinhas com o método da agricultura biológica, ou seja, procuro cuidar dos solos. Para tal, após a vindima e antes da chegada das chuvas, em outubro, vou lavrar as vinhas para aí semear tremoços, lentilhas e trevos. São leguminosas que têm a capacidade de captar o azoto do ar e de o fixar no solo, servindo assim de ingrediente ou alimento para as videiras.

T.M.N.: Quais são as castas predominantes nesta região do planalto mirandês?

A.D.: As castas tradicionais desta região são a negreda e o bastardo preto.

T.M.N.: Que doenças afetam as videiras?

A.D.: No planalto mirandês, dado que o clima é árido e há pouca humidade, não há muitas doenças. Ainda assim, uma das doenças mais comuns é a propagação de fungos como o míldio.

T.M.N.: Quais são as condições atmosféricas ideais para a vinha?

A.D.: A vinha quer muito sol e pouca água, para não stressar as videiras.

T.M.N.: Como se poduz um bom vinho?

A.D.: O bom vinho faz-se na vinha, ao longo do ano. Para tal, são necessárias uvas maduras e claro, sem doenças. Depois, vem o trabalho na adega. Como faço um vinho natural, sem aditivos e conservantes, é muito importante lavar bem a adega e todos os materiais, antes de começar a prensar as uvas, para as transformar em vinho.

O bom vinho faz-se na vinha, ao longo do ano. Para tal, são necessárias uvas maduras e sem doenças.

T.M.N.: Após a prensa das uvas o trabalho está terminado?

A.D.: Após a prensa da uvas há que acompanhar a fermentação do vinho. Diariamente, meço a temperatura do vinho e a sua densidade ou quantidade de açúcar. Dado que é um vinho natural, sem a adição de outros produtos tenho que cuidar bem da fermentação, para evitar que o vinho se estrague. Esta fermentação vai decorrer ao longo de vários meses e o vinho só estará pronto para beber em junho, do próximo ano.

A fermentação vai decorrer ao longo de vários meses e o vinho só estará pronto para beber em junho do próximo ano.

T.M.N.: E quais são as caraterísticas destes vinhos?

A.D.: Para mim, o importante é o equilíbrio entre o aroma e acidez. Tradicionalmente, nesta região vindima-se muito tarde, o que faz com que as uvas tenham muito açúcar e portanto muito álcool. Os vinhos que produzo têm mais acidez, sabem mais à fruta e são mais leves.

T.M.N: Como vai ser a colheita de uvas deste ano? Que quantidade espera colher? E como é a qualidade das uvas?

A.D.: A quantidade é boa, mas em termos de qualidade, a colheita deste ano vai ser complicada, porque a maturação das uvas está atrasada. Nas últimas semanas de setembro, a temperatura arrefeceu bastante e chove, o que não permitiu que as uvas amadurecessem tanto quanto desejaria. A uva branca, por exemplo, está pouco doce e falta-lhe aroma.

T.M.N.: Que tipos de vinhos produz?

A.D.: Produzo três tipos de vinho. Um branco. Um tinto. E um vinho rosé.

T.M.N.: O seu vinho tem um marca própria?

A.D.: Sim, a marca dos vinhos denomina-se Menina d’Uva. São comercializados sobretudo para Porto, Lisboa e o estrangeiro.

T.M.N.: Esta região tem boas condições de solo e de clima para a produção de vinho?

A.D.: Sim, no planalto mirandês há ótimas condições para a viticultura, dado que há vários tipos de solos, como são o granito, o xisto e a argila. Mas, estranhamente, é uma região esquecida e subaproveitada na produção de vinho.

T.M.N.: Depois da vindima, que tarefas vai realizar na vinha?

A.D.: Como referi atrás, após a vindima vou lavrar as vinhas para aí semear tremoços, lentilhas e trevos que têm a capacidade de captar o azoto do ar e de o fixar no solo, servindo assim de ingrediente ou alimento para as videiras. Depois, em janeiro vou iniciar a poda das videiras.

T.M.N.: Porque é que a poda é tão importante?

A.D.: A poda é muito importante, porque uma videira é uma planta, ou seja, é um circuito de seiva. Se na poda corto a planta num sítio errado posso interromper esse circuito de seiva e assim secar a planta. Por essa razão, dou uma grande importância ao trabalho da poda das videiras. No primeiro ano de cultivo de uma vinha, tenho por método dedicar cinco minutos a cada videira, usando uma machada e uma tesoura. Depois, nos anos seguintes, o trabalho da poda já é mais rápido. Este trabalho da poda inicia-se em janeiro. E após a poda, as vinhas são estrumadas.

T.M.N.: Para além do trabalho, costuma dizer-se que a vindima é também uma festa. Continua a ser assim?

A.D.: Sim, a vindima também é um momento de convívio entre familiares, amigos e até voluntários que se interessam pela produção de vinho biológico.

No planalto mirandês há ótimas condições para a viticultura, dado que há vários tipos de solos, como são o granito, o xisto e a argila. Mas, estranhamente, é uma região esquecida e subaproveitada na produção de vinho.

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