Miranda do Douro: Bienal dedicada ao Teatro Popular Mirandês
A primeira Bienal do Teatro Popular Mirandês está agendada para os dias 22 e 23 de maio, com a representação do auto “A confissão do marujo”, pela associação Tradifols, Artes e Ritmos, um evento cultural cuja finalidade é reanimar esta manifestação coletiva de arte popular.

António García, regrador e estudioso do Teatro Popular Mirandês (TPM), explicou que a Bienal surge para preservar e valorizar uma das mais genuínas manifestações culturais da Terra de Miranda, enraizada nos costumes tradicionais e na memória coletiva do povo, que ao longo dos séculos soube preservar a sua identidade e assim resistiu ao tempo.
De acordo com o investigador, o Teatro Popular Mirandês nasceu em contextos rurais e comunitários frequentemente associado a festividades religiosas, romarias e momentos de convívio.
“O Teatro Popular Mirandês ultrapassa a dimensão do simples entretenimento, afirmando-se como um espaço de expressão cultural, transmissão de saberes e resistência identitária”, vincou.
A Tradifolis em parceria com outras organizações como o Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC) vão representar peças emblemáticas do património cultural mirandês, durante a bienal.
“É neste contexto que emerge a Bienal do Teatro Popular Mirandês, não apenas como um evento, mas como um encontro, celebração e criação, que vai reunir grupos de teatro, artistas, investigadores e a comunidade. Este projeto assume-se como um motor de desenvolvimento cultural, social e económico da região”, explicou Antonio Garcia.
A Bienal vai abrir com o auto “A Confissão do Marujo” que foi recolhida na aldeia da Póvoa, no concelho de Miranda do Douro e que contar com a estreia do auto “A tia Lucrécia” representado pelo GEFAC.
O linguista e académico, António Bárbolo Alves, que faz parte deste projeto, disse que a questão da origem do Teatro Popular Mirandês não pode ser explicada por uma única fonte, devendo ser vista como um verdadeiro fenómeno de sincretismo cultural.
“O que hoje chamamos por Teatro Popular Mirandês — um conceito, convenhamos, bastante complexo — é o resultado de várias correntes que se fundiram na circunstância do isolamento geográfico do planalto mirandês”, explicou.
O também escritor e investigador da cultura mirandesa disse que é preciso olhar para os textos para se perceber a influência direta da chamada escola vicentina e de autores peninsulares dos séculos XVI e XVII.
António Bárbolo Alves fala também de nomes que marcaram este universo, como Baltasar Dias e Afonso Álvares, com os seus autos religiosos e moralizadores que deram a estrutura a estas peças, António Pires Gonge ou António Cândido de Vasconcelos, e os autores castelhanos, cujos textos circulavam livremente por feiras e romarias, aproveitando essa fronteira que sempre foi porosa.
Segundo o linguista, a esta base erudita juntam-se os próprios autores mirandeses, que souberam adaptar os temas à sua realidade.
“E aqui entra a peça fundamental deste puzzle: o papel dos regradores locais. Eram eles os verdadeiros guardiões da memória. Eram encenadores, eram copistas, mas não se limitavam a reproduzir. Eles transformaram os textos. Ajustavam as palavras, mudavam as falas e adaptavam tudo à vida concreta da aldeia”, disse António Bárbolo Alves.
“Para um linguista, o que mais me fascina é mesmo a língua. É curioso porque o Teatro Popular Mirandês não usa o mirandês na sua totalidade. O que temos é uma matriz onde o português e o castelhano se cruzam, mas estão completamente impregnados pela oralidade local”, enfatizou António Bárbolo Alves.
O Teatro Popular Mirandês é “um registo precioso que nos mostra como a população se apropriava de textos que vinham de fora para os naturalizar, tornando-os parte do seu património”, disse.
Fonte: Lusa





























































































