Avifauna: Campanha para salvar a águia-caçadeira

Em Portugal e no oeste de Espanha, está a decorrer entre março e agosto, a campanha anual “Salvar o Tartaranhão-caçador” ou águia-caçadeira, com o objetivo de proteger e salvar esta ave de rapina migratória, que está em perigo de extinção na península ibérica.

É no solo, entre as searas, que a águia-caçadeira ou tartaranhão-caçador faz o ninho e com voo suave, sobre os campos agrícolas, busca alimento entre roedores e répteis. Mas a agricultura mecanizada tem-se revelado uma grande ameaça.

O tartaranhão-caçador é uma ave de rapina que chega a Portugal na primavera, para nidificar, e regressa a África no outono. Está na lista das espécies mais ameaçadas do país. O número de indivíduos diminuiu 80% em dez anos.

A campanha para proteger esta espécie insere-se no projeto LIFE SOS Pygargus, que está a ser implementado por um consórcio de entidades portuguesas e espanholas, em colaboração com os agricultores e outros agentes do território.

De acordo com a Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, coordenadora do projeto, a campanha em curso consiste em monitorizar, proteger, resgatar e sensibilizar.

Monitorizar áreas de ocorrência do tartaranhão-caçador

Durante o período em que decorre a campanha, as equipas do projeto LIFE SOS Pygargus vão para o campo, monitorizar as áreas do tartaranhão-caçador (Circus pygargus), em Portugal e no oeste de Espanha.

A monitorização é realizada durante cerca de seis meses, entre março e agosto, com recurso a métodos e técnicas que visam minimizar ao máximo qualquer perturbação para estas aves.

“A monitorização também é feita através do seguimento remoto de indivíduos já marcados, nas campanhas anteriores e no início desta, com dispositivos GPS. Para auxiliar na localização de colónias e ninhos, nalguns casos específicos, são igualmente utilizados drones por parte de equipas especializadas, treinadas e com a devida autorização das autoridades competentes para o seu uso, seguindo sempre protocolos rigorosos para reduzir perturbações. Este ano, o projeto prevê marcar 30 ou mais aves com dispositivo GPS para reforçar a monitorização, estudo e conservação desta espécie”, informa a Palombar.  

Proteger é o foco principal, resgatar é a ação de emergência  

A monitorização das populações de tartaranhão-caçador durante o período em que se encontram na Península Ibérica, entre março e setembro, é essencial para conservar esta espécie que está no limiar da extinção no território nacional e em situação crítica em Espanha. 

A monitorização feita de forma sistemática e continuada pelos técnicos do projeto é, por si só, uma ação de proteção desta ave que nidifica no solo, em terrenos agrícolas com cereais e forragens e zonas de matos e terrenos incultos, e que está sujeita a várias ameaças. Mas, muitas vezes, é preciso dar um passo em frente. 

“Quando os técnicos detetam casos em que os ninhos podem ser destruídos pelas atividades agrícolas ou por ações de gestão do território, como queimadas controladas ou corte de vegetação em áreas de montanha, atuam para garantir a sua proteção com vedações ou evitar perturbações/destruição, em estreita colaboração com os agricultores e gestores locais, cujos contributos são decisivos; nos casos em que a proteção do ninho é inviável, resgatam ovos e/ou crias para que consigam completar o seu desenvolvimento em ambiente controlado e sejam transferidos para estações de aclimatação e, posteriormente, devolvidos à natureza”, indica a Palombar. 

Este método promove a fidelização das aves ao território, potenciando o seu instinto de filopatria, que é a predisposição de uma espécie para estabelecer o seu local de reprodução na mesma área onde nasceu ou passou as primeiras semanas de vida, contribuindo para aumentar a sua população numa determinada região. 

Sensibilizar os agricultores e outros agentes do território

Salvar o tartaranhão-caçador da extinção implica o envolvimento ativo dos agricultores e outros agentes locais.

“Os agricultores são fundamentais nessa missão ao colaborarem na deteção de ninhos e na sua proteção. Estas aves também lhes trazem benefícios, pois ajudam a controlar de forma efetiva pragas agrícolas como roedores e insetos, que podem afetar a produtividade das colheitas”, sublinha a Palombar. 

Outros agentes do território, como pastores, proprietários rurais e entidades públicas e privadas que gerem zonas de matos e terrenos incultos, onde o tartaranhão-caçador também faz ninhos, são igualmente importantes. A sua colaboração com as equipas do projeto no terreno para evitar a perturbação durante o período crítico de nidificação e a destruição de ninhos, sobretudo na época da gestão do risco de incêndio, que envolve fogo controlado e corte de matos, é igualmente fulcral para garantir o sucesso da reprodução. 

Todos podem ajudar com sentido ético e responsável   

Todos têm um papel a desempenhar para impedir que o tartaranhão-caçador desapareça das paisagens rurais e naturais do país, bem como os benefícios que gera para todos nós.

A partilha de registos de dados de observação em plataformas de ciência cidadã como o eBird é considerada um contributo relevante para o projeto, mas deve ser sempre guiada pela ética e responsabilidade. Nesta plataforma, e noutras similares, deve-se sempre ocultar informações sensíveis que permitam localizar com precisão colónias ou ninhos, sendo igualmente importante evitar e partilha generalizada destes dados. 

Não perturbar também é proteger e salvar. Não há registo, seja fotográfico, de vídeo ou outro, que justifique causar qualquer perturbação para estas aves ameaçadas. O projeto apela a todos para colaborarem, guiados pelo sentido de missão que salvaguarda o bem-estar e a conservação do tartaranhão-caçador. Dados de observações feitas por parte da comunidade em geral podem ser partilhados de forma segura com a equipa do projeto, através de um formulário, bem como por contacto direto via e-mail ou telemóvel, disponíveis aqui.  

 Sobre o projeto  

LIFE SOS Pygargus – Ações urgentes de conservação das populações de tartaranhão-caçador em Portugal e Espanha é um projeto ibérico cofinanciado em 75% pelo programa LIFE da União Europeia. Conta igualmente com cofinanciamento da Viridia – Conservation in Action, Lightsource bp, Fundo Ambiental e Fundação Biodiversidade do Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico de Espanha. 

É implementado por um consórcio que integra a Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural (entidade coordenadora), Associação BIOPOLIS-CIBIO, AEPGA – Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino, ANPOC – Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais, CCDR-N – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva SA, ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, LPN – Liga para a Protecção da Natureza, MC Shared Services SA, Modelo Continente Hipermercados SA, SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vita Nativa – Conservação do Ambiente, AMUS – Acción por el Mundo Salvaje, Consejeria de Agricultura, Ganaderia y Desarrollo Sostenible – Junta de Extremadura, GREFA – Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autóctona y su Hábitat e Universidad de Murcia. 

Fonte e fotos: Palombar e Flickr

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