Sociedade: Linguagem «circular e altamente repetitiva» da Igreja impede «frescura» do Evangelho – Carlos Liz

Carlos Liz, especialista em Estudos de Mercado, criticou o que chama de “incompetência comunicacional da Igreja”, falando numa “linguagem circular” que contraria a mensagem de Jesus nos Evangelhos.

“Todo o Evangelho, penso eu, é emissor-recetor. O ter o respeito pelo recetor é uma coisa elementar. Falam, falam, falam, comentam entre eles, acrescentam umas coisinhas, parafraseiam-se, publicam e depois informam que publicaram. Isso não tem nada a ver com comunicação”, explica o especialista, referindo-se à hieraquia católica.

Carlos Liz lamenta o uso de linguagem “altamente repetitiva, altamente interconectada quase sempre da mesma maneira”.

“A Igreja tem felizmente, ao longo da sua história, um número infinito de textos. O que eu observo há bastante tempo, e me irrita, são as interligações entre textos dentro de uma espécie de endogamia textual: aquilo é uma colagem – uma colagem esperta, bem entendido, minimamente aceitável, prática – mas as colagens são boas em artes plásticas, não são boas em evangelização, não é? Tenho frequentemente um sentimento ‘déjà vu’ – olha isto já deu, olha isto está a dar, olha outra vez…”, refere.

“As pessoas moram na linguagem do ser – para citar o filósofo Martin Heidegger – ou seja, nós moramos nas palavras que usamos. Morar sempre no mesmo sítio, quando em causa está a evangelização, não é bom”, acrescenta.

Carlos Liz desenvolveu um projeto sobre marketing vocacional junto da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP), sobre quem afirma “muita admiração”.

Há uma contradição profunda. As pessoas da Vida Consagrada, que são as pessoas que eu conheço melhor, religiosos e religiosas, e admiro-os muito porque eles para mim representam uma linha de proximidade a Deus, feita pela vida de Deus. Há um testemunho que sobressai de uma vida tão profunda mas feita de palavras tão superficiais. É uma contradição muito irritante.”

O percurso de Carlos Liz, que se iniciou nos estudos de marcado na década de 70, persegue o ‘porquê’, aplicado a comportamentos e escolhas do ser humano, tendo passado por diferentes áreas de negócio.

Carlos Liz considera a sua experiência como diretor de Marketing na TVI, em 1993, como “um total fracasso” e assume o desalento e desilusão sentidos na altura, no contacto com a hierarquia.

“Como é que estes homens dedicados a Deus são tão acomodados, tão postos na cadeira, dizem sempre as mesmas coisas? Aqui qualquer coisa não está a funcionar”, recorda.

Aos 70 anos, dedicado à investigação em Estudos Clássicos, e perseguindo a “curiosidade” com a palavra, Carlos Liz decidiu celebrar o sacramento do Crisma, descobrindo a importância do “Espírito santo na Santíssima Trindade” e na sua vida.

“Para mim o Espirito Santo é o ‘software’ do sistema da Santíssima Trindade: anda por onde quer, larga tudo, dorme na tenda, dorme no hotel, dorme em casa, dorme na rua, aparece quando ninguém lhe pergunta, não tem corpo, não tem a majestade do Deus. Acho interessantíssimo”, afirma.

Através da CIRP, Carlos Liz tem desenvolvido trabalho com algumas congregações religiosas, nomeadamente as Servas de Nossa Senhora de Fátima – “abrimos literalmente a porta do número 100, em Lisboa” – e com os padres Marianos da Imaculada Conceição, no Convento de Balsamão, na diocese de Bragança.

A Igreja é muita coisa e eu não acredito que o Espírito Santo tenha folgas, não é? Portanto, há muito trabalho, certamente, mas é necessário dar visibilidade a esse trabalho, caso contrário não passam de histórias avulsas que não impactam no sistema.”

O especialista sublinha “o amor à Igreja” e a necessidade da sua existência, afirmando a “fisicalidade”, necessária ao homem, da “Igreja-templo, da Igreja-religiosos, da Igreja-sacramentos”

“Amar a Igreja significa compreender emocional e cognitivamente a sua importância única, respeitar a sua longevidade, o que é muito interessante e não pode ser engano”, precisa.

“A comunicação muda-se vivendo com os outros. É por isso que eu gosto muito da CIRP e dos missionários, porque esses saíram, foram, aprenderam, conviveram, criaram valor e, como tal, a linguagem deles é diferente. O sistema, tal como está montado, não deixa que a linguagem apareça com a devida frescura”, prossegue.

A conversa com Carlos Liz pode ser acompanhada esta noite no programa ECCLESIA, emitido na Antena 1, porco depois da meia-noite, e disponibilizado no podcast ‘Alarga a tua tenda’.

Fonte e fotos: Ecclesia

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