Duas Igrejas: Festa em honra de Santa Bárbara
No fim-de-semana de 23 e 24 de maio, a aldeia de Duas Igrejas, no concelho de Miranda do Douro, celebra a festa em honra de Santa Bárbara, uma festividade religiosa que este ano inclui na programação, a representação teatral Auto da Tia Lucrécia e no Domingo, a celebração da eucaristia, seguida da procissão pelas ruas da aldeia.

Em Duas Igrejas, a festa dedicada a Santa Bárbara inicia-se no sábado, dia 23 de maio, com o convívio comunitário no largo do Toural. Ao final da tarde (18h30) está programada a representação teatral do “Auto da Tia Lucrécia. Trata-se de um colóquio tradicional, interpretado pelo grupo Tradifols e que está inserido na Bienal de Teato Popular Mirandês, que decorre no concelho de Miranda do Douro, nos dias 22, 23 e 24 de maio.
No Domingo, dia 24 de maio, a festa em honra de Santa Bárbara, em Duas Igrejas, prossegue com o peditório pelas ruas da aldeia, acompanhados pela música da Banda Filarmónica Mirandesa. A eucaristia dominical, que este ano coincide com a solenidade do Pentecostes, celebra-se às 14h30 e termina com a procissão das imagens de todos os santos, pelas ruas da aldeia.
Em Duas Igrejas, na Festa em honra de Santa Bárbara, há a tradição das “chocalhadas” pelas ruas da aldeia.
A Festa de Santa Bárbara, celebrada em Duas Igrejas, no concelho de Miranda do Douro, constitui uma das mais importantes manifestações religiosas e culturais da aldeia. Realiza-se de dois em dois anos, no terceiro fim de semana de maio e junta à celebração religiosa, rituais populares e momentos de convívio comunitário.
Embora a celebração litúrgica de Santa Bárbara ocorra tradicionalmente a 4 de dezembro, em Duas Igrejas a festa foi transferida para a primavera, período mais favorável para a participação da comunidade e simbolicamente associado ao renascimento da natureza. Na tradição popular, Santa Bárbara é invocada como protetora contra as trovoadas, raios e tempestades, o que ajuda a explicar a presença de certos elementos rituais ligados ao fogo e ao ruído.
Um dos momentos mais característicos da festa é a Chocalhada, também conhecida como Pandorga. Trata-se de uma arruada ruidosa pelas ruas da aldeia em que os participantes utilizam chocalhos e outros instrumentos sonoros, numa tradição que remete para antigos rituais associados à proteção da comunidade e ao despertar simbólico da natureza.
A chocalhada realiza-se em dois momentos: no sábado à noite, encabeçada pelos mordomos “velhos”, e no Domingo, conduzida pelos novos mordomos. Em ambos os casos, o grupo é acompanhado pelo trio tradicional de gaiteiros. A arruada começa no largo do Toural, logo após o pôr do sol, seguindo um percurso tradicional pelas ruas da aldeia que se mantém, segundo a memória local, há muitas gerações.
Ao longo do trajeto, as famílias aguardam à porta de casa com fogueiras preparadas, que são acesas quando o grupo se aproxima. Os participantes saltam então por cima das chamas, num gesto simultaneamente festivo e simbólico. Em tempos passados, algumas casas procuravam tornar o salto mais desafiante, preparando fogueiras maiores ou colocando obstáculos, o que estimulava a participação sobretudo dos mais jovens.
O Domingo da festa é dedicado sobretudo às celebrações religiosas. Durante a manhã realiza-se o peditório, geralmente acompanhado pela banda filarmónica, seguido da missa solene em honra de Santa Bárbara. Após a celebração tem lugar a procissão, na qual participam as imagens dos santos das várias igrejas e capelas da aldeia, bem como estandartes, pendões, bandeiras, cruz processional e lanternas. A preparação deste momento envolve grande mobilização da comunidade, especialmente no sábado à tarde, quando os habitantes se dedicam a enfeitar os andores e organizar a procissão.
Associada à festa existiu também a Dança das Flores, uma representação tradicional com quatro mulheres vestidas com trajes coloridos e flores na cabeça, acompanhadas por personagens masculinas e dois jardineiros que cantavam quadras populares. O refrão respondido pelas flores dizia: “Com flores, com flores, com flores se adornam.”
Esta dança, ligada à antiga Festa da Rosa de Miranda do Douro, foi recriada em Duas Igrejas pelo padre António Maria Mourinho na década de 1950, mantendo-se ativa até cerca das décadas de 1960 e 1970.
Apesar das transformações sociais e da diminuição da população, a Festa de Santa Bárbara continua a representar um importante momento de identidade e memória coletiva para a comunidade de Duas Igrejas, preservando práticas e rituais transmitidos ao longo de gerações.
Susana Ruano
HA