Igreja: Proximidade humana marca memória de Francisco
A proximidade humana e a descentralização estrutural marcam o legado do Papa Francisco, falecido há um ano, sublinham dois especialistas em declarações à Agência ECCLESIA.

A politóloga Sílvia Mangerona, investigadora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, assinala a “profundidade” do pensamento político e social de Francisco, falando um Papa “radical”.
“A radicalidade tem muito a ver com a instigação da alteração dos hábitos”, precisa.
A docente universitária valoriza o conteúdo dos principais documentos do pontificado anterior, considerando os textos como guiões essenciais para a sociedade contemporânea.
“A ‘Fratelli Tutti’ ou a ‘Laudato si’ são obras que deviam ser relidas muitas vezes em voz alta”, assinala.
A herança papal abrange a promoção do caminho sinodal, estimulando a escuta das comunidades de base e fomentando o papel ativo da mulher na Igreja Católica.
A investigadora elogia igualmente o impacto das opções do pontífice argentino na diplomacia mundial e na promoção do bem comum perante a atual polarização.
“A política é a gestão da coisa pública, da comunidade”, indica.
Francisco faleceu a 21 de abril de 2025, após um pontificado de mais de 12 anos.
António Marujo, diretor do jornal digital ‘7 Margens’, especializado em informação religiosa, foca a ação do anterior pontífice na coragem de debater temas complexos e na resposta concreta aos apelos dos grupos mais vulneráveis.
“Foi claramente um Papa que pôs a Igreja a mexer”, refere à Agência ECCLESIA.
O jornalista evoca a coerência entre a retórica do pontífice e a prática visível, exemplificada pelo acolhimento de refugiados e pela criação de estruturas de apoio aos sem-abrigo no Vaticano.
“Com Francisco nós percebemos que essa palavra, essa retórica tinha consequências”, assinala.
A internacionalização das estruturas romanas representa outro marco do anterior pontificado.
“É mais uma coerência: ao falar de periferias, traduziu isso também para o interior da Igreja, trouxe estas periferias para o centro”, recorda.
Jorge Mario Bergoglio, nascido em Buenos Aires a 17 de dezembro de 1936, tornou-se, a 13 de março de 2013, o primeiro Papa jesuíta e o primeiro proveniente do continente americano a liderar a Igreja Católica.
Comprometido com o combate à “indiferença” e à “economia que mata”, o pontífice deixou como uma das suas marcas o processo sinodal iniciado em 2021, desafiando a Igreja a um caminho de escuta, diálogo e maior participação de todos os seus membros.
Portugal assumiu um papel de relevo nesta geografia papal, consolidado com a visita a Fátima em 2017 — para o centenário das Aparições e a canonização de Francisco e Jacinta Marto — e a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023.
Na capital portuguesa, Francisco deixou o apelo a uma Igreja aberta a “todos, todos, todos”, mensagem que ressoa como o seu testamento espiritual, para muitas pessoas.
Fonte: Ecclesia