Leitura: Livrarias infantojuvenis constroem comunidades
Com oficinas, leituras animadas e canções, as livrarias infantojuvenis desdobram-se hoje em múltiplas atividades e o livreiro ganhou mais protagonismo para criar comunidades de leitores e alimentar o negócio do livro.

Em Portugal, o modelo de livraria especializada em literatura para crianças mudou nos últimos anos, porque já não chega ter escaparates com livros ilustrados, nem uma programação paralela de mediação com os leitores.
“Passou a haver um modelo de livraria infantojuvenil – até pela natureza dos objetos para contar, lidos em voz alta – cuja premissa assenta nesta ideia de primeiro comunicar o livro, animando-o, e depois haver a compra”, explicou à agência Lusa a pedagoga Dora Batalim Sottomayor.
Em muitas das cerca de 30 livrarias infantojuvenis que existem no país já funciona esse modelo de espaço cultural recheado de atividades, onde os pais ou educadores levam as crianças para sessões de leitura em voz alta, feitas pelos próprios livreiros ou por animadores por eles contratados.
Algumas também fizeram das redes sociais – sobretudo desde a pandemia – uma montra de visibilidade, com milhares de seguidores angariados, a quem disponibilizam vídeos, gravados ou em direto, de leitura e interpretação de livros.
Dora Batalim Sottomayor, que acompanha há várias décadas as políticas de promoção do livro e da leitura e o mercado do livro, diz que “há claramente perfis diferentes” de livreiros e de livrarias para crianças.
Existem livrarias em que o livreiro é alguém que “pode ser fundamental no aconselhamento e descoberta do livro” e que dá espaço ao leitor para se relacionar individualmente com o livro.
Há livrarias onde as pessoas “vão para assistir a um contar de um livro como quem vai a um espaço mais cénico”. Tornaram-se “quase clubes de fãs, em que a identidade da pessoa [livreira] está muito ligada à própria livraria”.
E “aparentemente há públicos para todas”, referiu Dora Batalim Sottomayor à Lusa, nas vésperas de se assinalar o Dia Internacional do Livro Infantil, a 02 de abril.
Em termos de público, Sofia Vieira é um fenómeno no panorama infantojuvenil, cujo nome é quase sinónimo da livraria Aqui Há Gato, com portas abertas desde 2007 no centro histórico de Santarém.

“Isto é uma ideia muito romântica. Só que para manter isto é muito difícil. […] Ou somos muito inteligentes a fazer, a gerir, ou então estamos condenados”, contou Sofia Vieira em entrevista à agência Lusa, antes de uma esgotada sessão de leitura na livraria.
Para garantir sustentabilidade, Sofia Vieira conta histórias na livraria, vai a escolas, festivais, bibliotecas, faz oficinas e escreve. A tudo isto acrescentou, em 2020, a divulgação ‘online’, “um pequeno milagre” para o seu negócio livreiro.
Com a pandemia da covid-19, sem poder acolher crianças na livraria por causa do confinamento, passou a ler histórias ‘online’, em direto e em vídeos gravados. Seis anos depois, mantém a rotina diária na Internet, onde tem 50 mil seguidores no Facebook, 36,7 mil no Instagram e 123 mil no Youtube.
No último mês alcançou três milhões de visualizações dos vídeos que publica no Youtube e dos quais diz não retirar qualquer rendimento, até porque algumas editoras discordaram que as suas histórias ficassem disponíveis ‘online’.

“Eu não estou a criar leitores digitais, estou a criar leitores! Porque se eu não estivesse a criar leitores, eu não tinha pessoas aqui que vêm visitar-nos de Bragança, Braga, Porto. Estou a criar leitores com critério, que entram aqui e que me dizem assim: ‘Ó Sofia, eu gosto tanto daquela história que tem aquela personagem. […] Eu quero que os miúdos venham cá. Eu quero que os miúdos comprem livros”, exclamou.
Aos que a criticam por estar a colocar na Internet a leitura na íntegra de muitos livros, mesmo com o consentimento das editoras, Sofia Vieira responde com uma ideia de serviço público.
“Isso eu tenho claro em mim, eu estou a prestar um serviço público, por isso é que eu não estou a rentabilizar um cêntimo pelos nossos filhos [com os vídeos na Internet]. Porque eu quero que os miúdos tenham o máximo de contacto com os livros, porque saem sempre livros a toda hora, a todo momento. […] Há crianças que, se calhar, a única maneira de ouvirem histórias é aquela e o livro é um produto cultural, nem devia ter IVA”, diss
Em Coimbra, a Faz de Conto, aberta desde 2017 no Exploratório – Centro Ciência Viva, também partilha dessa ideia de comunidade, vende e promove o livro infantil através de oficinas de ilustração, sessões de histórias, tanto na livraria como em escolas e festivais.
“Desde o início que tentamos promover o livro infantil sempre à base da comunidade, envolvendo as pessoas de Coimbra e acabamos por chegar a todo o país”, contou à Lusa a fundadora da Faz de Conto, Sofia Correia.
Com sessões de leitura todos os domingos de manhã, Sofia Correia considerou que a realização de atividades é essencial e que a mediação é um fator diferenciador numa livraria independente.
“É fundamental para a sua sobrevivência, porque, se não fosse isso, acho que podiam comprar livros no supermercado”, justificou.
Para a livreira, as principais dificuldades são manter o público e a relevância da livraria e o mais gratificante é a mediação bem-sucedida, seja nas leituras ou nas sugestões dadas aos leitores.
“O que eu gosto mais na livraria é mesmo encontrar o livro certo, para a pessoa certa, no momento certo. Às vezes conseguimos, nem todas, infelizmente, mas há uns momentos que fazem toda a diferença e que nos dão vontade de continuar”, admitiu, sorrindo.
Sofia Correia destacou a “evolução dos públicos” da Faz de Conto, que, além de já ser um público fiel, abrange “muitas pessoas diferentes”, incluindo famílias, bibliotecários, professores, mas também adultos que compram livros para si.
“É muito interessante ver que os públicos têm crescido e passado a palavra a outras pessoas que acabam por vir também”, descreveu.
Um dos projetos livreiros mais recentes para crianças, que também procura criar uma comunidade, é a Zumbido, que abriu em 2025 do outro lado da rua do Mercado de Matosinhos, no distrito do Porto, tornando-se assim na única livraria de rua de um concelho com quase 180 mil habitantes.

Adepta do livro ilustrado enquanto obra que não se deve restringir ao público infantil, a livreira Joana Domingues contou à agência Lusa que encara a Zumbido com espírito de missão, em prol do livro, mas também da comunidade, num espaço onde há café e pastelaria de especialidade, jogos de tabuleiro, exposições e oficinas.
“Não é só a livraria, mas é um espaço onde as pessoas vão estar juntas, onde podem ler, onde podem trabalhar, mas onde as histórias são sempre a base, o fio condutor de tudo”, disse.
“Pensei muito, mas quis mesmo arriscar. Sei que ainda tenho muito para aprender. […] Se continuar a vender livros, imagino-me a estar nisto muitos anos”, afirmou Joana Domingues, que sublinhou ter uma relação “espetacular” com as editoras, apesar do volume limitado de livros que tem, por enquanto.

Entre as livrarias especializadas, a que tem tido uma estratégia mais expansiva é a Poets & Dragons Society, iniciada em 2018 na Costa de Caparica, no distrito de Setúbal, que começou por ser uma editora de poesia, estendeu-se a outros géneros, em particular ao livro ilustrado em português e em inglês, e trabalhava ‘online’ com sessões de histórias e venda de livros.
O foco da Poets & Dragons são as crianças do pré-escolar e primeiro ciclo de escolaridade e o perfil editorial é feito de “livros divertidos com repetições para leituras emergentes” e propícios à oralidade, como explicou à agência Lusa Elisabete Rosa-Machado, cofundadora do projeto.
“As pessoas precisam de ver o livro antes de comprar e nós fazíamos os vídeos e as pessoas compravam através dos vídeos. Então, fez-nos sentido abrir a primeira livraria para a pessoa ter contacto direto com os livros”, recordou esta professora de primeiro ciclo, com formação em livro infantil e gestão de bibliotecas escolares.
Perante o sucesso no digital, Elisabete Rosa-Machado e o marido abriram a primeira livraria na Costa de Caparica, depois outra em Lisboa, estiveram presentes em feiras do livro e construíram uma rede de dez animadores de leitura, que vão a escolas com os livros da editora.
Segundo Elisabete Rosa-Machado, a Poets & Dragons foi contactada por outras livrarias interessadas em replicar o modelo de livraria, pelo que o projeto se estendeu pelo país num regime de venda exclusiva do catálogo daquela editora.
É assim que existem, por exemplo, a Montanha de Livros, em Braga, ou a Patanisca & Sardanisca, em Águeda. Há ainda livrarias em Castelo Branco, Porto, e está prevista a abertura em Guimarães, Faro, Viseu e na Madeira. A partir de abril, a Poets & Dragons contará também com uma livraria itinerante para ir a escolas ou a feiras do livro.
Para Elisabete Rosa-Machado, as livrarias também têm a sua função no ecossistema da promoção da leitura e do livro infantil.
“Há pessoas que vêm aqui ainda desorientadas, [e dizem] o que é que eu posso oferecer ao meu filho? Há muitas famílias perdidas, não têm que saber o que nós sabemos, está tudo certo, então eu acho que a livraria faz esse papel”, disse.
De acordo com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), em 2025 a venda de livros em Portugal cresceu 6,9% em relação ao ano anterior, com um total de quase 15 milhões de livros vendidos, e esse aumento foi muito impulsionado pelos livros de colorir e infantis.
Os dados relativos ao número de unidades vendidas por género indicam que o mais procurado e único com um crescimento significativo em número de vendas foi o infantil/juvenil, que passou de 34,5% em 2024 para 36,3% em 2025.
Num mercado em que são publicadas muitas novidades editoriais, Dora Batalim Sottomayor concorda que pais e professores possam sentir-se “perdidos e a precisar de pautas de qualidade”, fornecidas por mediadores, bibliotecários ou livreiros.
“Vamos esperar que estas pessoas conheçam profundamente o que é um livro, que conheçam muitos livros e que tenham critérios de qualidade”, observou.

Com maior ou menor intuito comercial, a investigadora lembra o desígnio nobre das livrarias de serem “lugares em que as pessoas têm contacto com o livro, mexem no livro”.
“Fazem um grande trabalho num tempo tão digital em que tudo está dentro do nosso bolso: Poder entrar num espaço recheado de livros, com livreiros dedicados, que conhecem o seu acervo e que possam encaminhar os leitores e fazê-los descobrir o livro”, defendeu.
Fonte: Lusa | Fotos: HA