Reportagem: Uma presença discreta e amiga

Há 35 anos que as irmãs Servas Franciscanas de Jesus Sacramentado vivem e trabalham em Miranda do Douro, com uma presença muitas vezes discreta, mas que traz muitos benefícios para as gentes da Terra de Miranda.

As irmãs Maria da Luz, Emília, Conceição e Salomé formam a comunidade das Servas Franciscanas de Miranda do Douro (HA)

Carisma

A sua congregação foi fundada em 1941, pelo Bispo, Dom Abílio Vaz das Neves, natural de Ifanes, que deu o assentimento ao ideal de fundar uma congregação religiosa dedicada à adoração e reparação de Jesus, no Sacramento da Eucaristia. O nome “Servas” deve-se ao desejo de imitar Maria, Mãe de Deus, na docilidade ao Espírito Santo, para fazer a vontade do Senhor e servir os irmãos. Como “Franciscanas”, têm como propósito viver o Evangelho à maneira de S. Francisco de Assis em pobreza, humildade e simplicidade. E como “Reparadoras de Jesus Sacramentado” querem viver o espírito de adoração e reparação mediante uma fé profunda na Presença real, de Jesus, no sacramento da Eucaristia.

“À imitação de Nossa Senhora, querem ser companheiras inseparáveis de Jesus.”

A indiferença das pessoas pela Eucaristia

As fundadoras da congregação das Servas Franciscanas de Jesus Sacramentado, Alzira da Conceição Sobrinho e Maria Augusta Martins, tinham uma grande devoção pela Eucaristia e sofriam com a indiferença das pessoas, na região de Trás-os-Montes, por este Sacramento. Para reparar esta indiferença e para que Jesus Sacramentado não fosse esquecido, a congregação formou em cada aldeia, os grupos conhecidos como os Visitadores do Sacrário. São grupos de senhoras que têm a missão de reparar e adorar Jesus Sacramentado, através da participação assídua à Eucaristia, na adoração e visita ao Santíssimo Sacramento, nas igrejas onde Ele se encontra muitas vezes abandonado e fechado. É assim que os Visitadores do Sacrário têm a missão de, pelo menos uma vez por mês, fazer a adoração do Santíssimo Sacramento. É a isto que chamam reparação de Jesus Sacramentado.

“Para reparar a indiferença das pessoas pelo sacramento da Eucaristia, a congregação formou em cada aldeia, os grupos dos Visitadores do Sacrário.”

A vocação

A Irmã Salomé, natural de Freixiel, no concelho de Vila Flor, conta que desde pequena queria ser como as “Irmãs, as mulheres de saias compridas, que iam pelas aldeias a fazer o peditório”. O pai, que faleceu tinha ela apenas 3 anos, disse à sua mãe que quando fizesse a quarta classe a deixasse ir para as Irmãs. E assim foi. Aos 10 anos entrou na congregação das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado, em Chacim (Macedo de Cavaleiros). Aos 15 anos pediu para entrar no noviciado. Como gostou deste estilo de vida, decidiu continuar na vida religiosa. Também diz que passou por momentos difíceis, mas assegura que nunca duvidou da vocação religiosa. Em breve, vai celebrar 60 anos de vida consagrada e diz ser uma pessoa feliz. As Irmãs dizem que a vocação é um desejo de corresponder ao amor de Deus. Muitas vezes, este amor a Deus, começa no ambiente familiar através da oração quotidiana (como o terço), da catequese e da participação na Eucaristia. “É assim que se cresce num maior conhecimento de Deus”, dizem. E o conhecimento leva ao amor e ao compromisso. Contudo, as irmãs lembram que para se decidirem por Deus, tiveram que renunciar a outras possibilidades, como ao matrimónio, aos laços familiares (visitam a família, em certas ocasiões, como nas férias) e à posse de bens materiais. Apesar de tudo, asseguram que quem se decide por Deus, nada lhe falta.

“A Irmã Salomé, em breve, vai celebrar 60 anos de vida consagrada e diz ser uma pessoa feliz.”

A missão

Há 35 anos, que as Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado trabalham na Terra de Miranda, ou seja, nos concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso. Aquando da sua chegada a esta região, instalaram-se em Miranda do Douro, junto à Igreja de Santa Cruz. O seu trabalho inicial consistiu em percorrer todas as aldeias desta região para formar os grupos de Visitadores do Sacrário. Foi graças a esse trabalho pioneiro, que hoje, em cada paróquia, há um grupo de Visitadores do Sacrário. Atualmente, o trabalho das Irmãs consiste em dar apoio a esses grupos. De vez em quando, visitam-nos e dão-lhes o apoio necessário para bem realizar essa missão de adoração ao Santíssimo Sacramento. Por outro lado, sempre que há encontros regionais ou nacionais convocam os grupos de cada aldeia a participar. É nesses encontros que se promove o convívio, a oração e o sentido de pertença à comunidade alargada, que é a Igreja. No ano que terminou, devido à pandemia não foi possível realizar esse encontro. Outra faceta do trabalho das Irmãs é a venda dos calendários, com o duplo objetivo de dar a conhecer as obras sociais da congregação e destinar a receita angariada para as obras sociais com maiores necessidades.

“A venda dos calendários tem o duplo objetivo de dar a conhecer as obras sociais da congregação e destinar a receita angariada para as obras sociais com maiores necessidades.”

As obras sociais

A congregação das Servas Franciscanas de Jesus Sacramentado está presente em Portugal, Angola, Moçambique e no Brasil, e é nestas ex-colónias que estão a surgir novas vocações à vida religiosa. Em Portugal, as irmãs trabalham em Bragança, Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Chaves, Porto e Miranda do Douro. De um modo geral, o trabalho das Irmãs consiste na promoção da pessoa, nas várias etapas da sua vida. Por isso, trabalham em infantários, jardins de infância, no apoio a tempos livres e nas escolas primárias.

Em Miranda do Douro, por exemplo, participam na catequese das crianças. Dado que nas aldeias, há poucas crianças, os pais optam por trazê-las a Miranda do Douro e inserem-nas nos grupos de catequese aí existentes. As Irmãs destacaram-se também no trabalho desenvolvido ao longo de 60 anos na Casa da Criança Mirandesa, em Sendim. Aí, realizaram um trabalho notável no acolhimento e na educação de crianças pobres e abandonadas. Este seu trabalho continua a ser reconhecido, sobretudo por aqueles que foram acolhidos e cresceram na Casa da Criança Mirandesa.

Outra missão das religiosas é estar presentes na área da saúde, procurando ser uma presença humanizadora e criar ambientes de acolhimento e de carinho nos lares da Terceira Idade, nos Centros de Dia e no Apoio Domiciliário. Com a atual pandemia e a impossibilidade de visitar os doentes e os idosos, e de lhes levar a Comunhão ou fazer a celebração da Palavra, as Irmãs procuram acompanhar estas pessoas, à distância, telefonando.

Nas paróquias, a congregação assume várias tarefas: na catequese, na animação dos grupos paroquiais, na animação litúrgica e na formação cristã. Por causa da escassez de clero, em algumas aldeias, as irmãs disponibilizam-se para a animação de celebrações dominicais na ausência do padre.

“Em Portugal, as irmãs trabalham em Bragança, Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Chaves, Porto e Miranda do Douro.”

As maiores necessidades das pessoas

De acordo com as Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado, o despovoamento das aldeias e a falta de crianças e jovens é uma realidade desoladora na Terra de Miranda. A maioria das pessoas são os idosos. E neste realidade, há paróquias que ainda valorizam e se alegram com a visita das religiosas. Mas também há outras que dizem: “Não vale a pena virem, somos tão pouquitos. Este desânimo também é revelador da pobreza espiritual”, dizem. As pessoas não dão valor e importância às coisas espirituais. “E se os adultos não se interessam, as crianças e jovens que seguem o seu exemplo, também não”, lamentam. Em Miranda do Douro, por exemplo, as Irmãs dizem que gostariam de contar com a colaboração de uma irmã mais jovem, com mais energia e vivacidade para acompanhar a juventude, de modo a formar um grupo de Crisma e a participar mais na vida da Igreja, como por exemplo, nas Jornadas Mundiais da Juventude que se vão realizar em Lisboa, em 2023.

“As pessoas não dão valor e importância às coisas espirituais. E se os adultos não se interessam, as crianças e jovens que seguem o exemplo dos adultos, também não.”

HA

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