Pecuária: Criadores agastados com sucessivos ataques de lobos em Trás-os-Montes

Nas serras do Marão e Alvão, no distrito de Vila Real, os criadores de animais reclamam soluções de fundo para os sucessivos ataques de lobos às explorações pecuárias.

Na pequena localidade de Currais, no concelho de Vila Real, no sopé das serras do Marão e do Alvão, Eunice e Manuel Domingues dizem ter perdido uma burra, num alegado ataque de lobos, ocorrido a 28 de julho.

O casal disse ter o cuidado de guardar as vacas, burras e póneis durante a noite, mas o ataque terá ocorrido cerca das 06:00, quando retiravam os animais da exploração.

«O lobo atacou durante o dia, a cerca de 100 metros da aldeia, e desta vez matou-nos [gado] asinino, uma burra», explicou Manuel Domingues.

Segundo o agricultor, o ataque foi comunicado ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), para averiguações e uma eventual indemnização, que já esteve no local.

«Vão pagar 100 euros por um animal que esteve connosco 11 anos, um animal de trabalho, que fez algumas festas connosco, e agora chegamos de manhã e está morto pelo lobo, no meio do povo. O senhor que foi abrir a porta, nosso amigo, tem 75 anos, anda com dificuldade, já imaginou se o lobo o atacava? Não pode ser, o lobo não pode continuar a chegar às aldeias», defendeu.

Também na Foz, aldeia vizinha, no dia 23 de julho, um alegado ataque de lobos matou dois póneis.

«O lobo tem atacado os poucos animais que há nesta região. Os póneis pertenciam a um casal [na casa dos] 70 anos, que pastavam num terreno junto à aldeia», vincou Manuel Domingues.

O também representante da AGRITAD – Associação de Apoio ao Desenvolvimento e Gestão Agrário de Trás-os-Montes e Alto Douro reivindicou uma majoração por cabeça de gado.

«Se existem estudos que indicam onde estão as alcateias, queremos que haja apoio para essas zonas, com uma majoração por animal, que [permita] ao agricultor decidir se, com esse apoio extra, quer manter os animais mais [resguardados], gastar mais dinheiro em feno, em alimento concentrado e protegê-los, ou então deixá-los andar no monte e correr o risco de perder alguns», reiterou Manuel Domingues.

A AGRITAD reclama uma alteração de fundo que, justifica, também contribuiria para a própria preservação do lobo-ibérico.

«Os criadores de animais estão cada vez mais revoltados, porque não podem estar a sustentar o lobo, está a acontecer aqui, em Miranda do Douro e no Gerês, com os [cavalos] garranos. Querem que façamos o pastoreio dos montes, mas não há condições, é impossível. Toda a gente defende o lobo, mas ninguém defende os agricultores», alertou.

A 20 de julho, um alegado ataque de lobos matou 46 ovelhas, numa exploração agrícola, em Duas Igrejas, no concelho de Miranda do Douro.

No final de outubro de 2025, os pastores do Planalto Mirandês queixaram-se que os ataques de lobos ocorridos desde o início desse ano eram «uma calamidade».

Segundo o ICNF, o lobo-ibérico possui em Portugal o estatuto «em perigo», que lhe confere o Estatuto de Espécie Protegida.

Existem diversas medidas de proteção da espécie, entre as quais se destacam as indemnizações por danos causados pelo lobo-ibérico, e ainda vários projetos que apoiam os criadores de gado e incentivam medidas de proteção, como o uso de cães de gado de raças autóctones.

Já no início de dezembro de 2025, a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, anunciava que o Governo iria duplicar o valor das indemnizações pagas no caso de ataque de lobos, com retroativos desde o início do ano, no âmbito do Programa Alcateia.

Assim, para indemnizações por perda de caprinos houve um aumento global de 227%; para os equídeos o aumento foi de 160%, para os ovinos de 130%, e para os bovinos de 97%.

Fonte: Lusa | Imagens: Flickr e HA

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