Opinião: “A Importância da Gastronomia no Desenvolvimento dos Territórios: a Confraria da Rosquilha de Argozelo” – Carina Lopes
A gastronomia é muito mais do que um simples ato de comer, é uma expressão cultural profunda, que transmite saberes, histórias e tradições. Ao longo da história, a comida sempre ultrapassou a função meramente biológica de nutrir o corpo. Desempenha papéis sociais, culturais e simbólicos, funcionando como um elemento central na construção de identidades coletivas e individuais.

“A comida pode ser considerada não apenas como um meio de identificação e de afirmação de pertença, mas também como uma poderosa ferramenta de comunicação. Por meio dos alimentos e do ato de comer comunicam-se valores e cultura e produzem-se significados relacionados com a identidade, também mediante os hábitos alimentares individuais” (2016:3). – Franzoni
Esta perspectiva permite compreender a alimentação como uma linguagem social e cultural, na qual se exprimem identidades, tradições e pertenças. Esta dimensão simbólica da comida revela-se particularmente relevante quando se pensa no papel da gastronomia no desenvolvimento dos territórios.
Para além de satisfazer necessidades nutricionais, a gastronomia valoriza patrimónios locais, preserva saberes tradicionais e promove práticas comunitárias, ao mesmo tempo que se afirma como um recurso estratégico para a dinamização económica e turística. Assim, a forma como um território comunica a sua cultura, através da comida, pode transformar-se numa via de afirmação identitária e de promoção, gerando oportunidades de valorização cultural, social e económica.
Esta dimensão simbólica encontra expressão concreta nas dinâmicas locais, já que, nos últimos anos, a gastronomia tem-se afirmado como um dos pilares centrais do desenvolvimento sustentável dos territórios, sobretudo daqueles com menor densidade populacional ou situados em áreas rurais, evidenciando-se na multiplicação de feiras em que a componente gastronómica assume um papel de destaque. Estes eventos não só preservam tradições, como também são pontos de encontro entre comunidade e visitantes, estimulando a economia e reforçando a atratividade regional. Neste contexto, evidencia-se ainda a estreita articulação entre o turismo e a gastronomia, uma vez que, como refere Carina Lopes:
“O setor turístico está intimamente ligado ao setor gastronómico, pois gera uma fileira de empregos, desde os agricultores e produtores de alimentos aos funcionários da hotelaria. Restaurantes, mercados e produtores locais beneficiam deste turismo gastronómico, que, muitas vezes é a expressão da identidade cultural de uma região, ajudando a diferenciá-la de outros lugares, bem evidente nas inúmeras “feiras” espalhadas pela região: Feira das Rosquilha em Argozelo, a Feira do Pão, em Caçarelhos, Feira da Castanha e dos Produtos da Terra, em Avelanoso, Feira do Azeite e da Oliveira Santulhana, em Santulhão, Fromago em Zamora, Feira do cabrito, do mel, da alheira, do cebolo, do vinho, da bola doce, etc.” (2015: 173).
Neste mesmo quadro, produtos locais como a Rosquilha de Argozelo e instituições como as confrarias gastronómicas assumem um papel essencial na valorização, promoção e preservação da identidade cultural e económica das regiões, confirmando que a gastronomia é um elemento decisivo da identidade humana e um dos instrumentos mais eficazes para a comunicar e transmitir ao mundo (Prieto 2024: 13).
As confrarias constituem autênticos agentes culturais e económicos, atuando como guardiãs e promotoras da herança gastronómica, com a finalidade de valorizar e promover o território, fomentar o orgulho local e incentivar a preservação dos saberes tradicionais.
As confrarias gastronómicas são associações, geralmente sem fins lucrativos, que têm como principal objetivo preservar, promover e divulgar produtos tradicionais, receitas regionais e património alimentar de uma determinada região ou comunidade.
A criação da Confraria da Rosquilha de Argozelo teve como propósito central a promoção do produto e do território que representa, potenciando oportunidades turísticas, atraindo novos públicos, fomentando o desenvolvimento local e assegurando a transmissão do saber-fazer às gerações futuras. Ao valorizar este doce típico, a confraria não só contribui para a criação de novas oportunidades de negócio, permitindo aos produtores locais aumentar as suas vendas e reforçar a sustentabilidade económica da região, como também preserva a tradição da confeção artesanal, promovendo-o como símbolo da identidade cultural da freguesia. Paralelamente, através da organização de eventos e da participação em encontros de confrarias, procura projetar o nome de Argozelo a nível regional e nacional.

A Rosquilha de Argozelo, produto típico da freguesia transmontana de Argozelo (concelho de Vimioso), tem raízes profundas na tradição local. Confecionada à base de ingredientes simples, como a farinha, os ovos e o açúcar, mas com um sabor único e uma confeção artesanal, representa uma herança que importa preservar.
Assim sendo, a gastronomia, enquanto vetor estratégico para o desenvolvimento integrado dos territórios, encontra na Confraria da Rosquilha de Argozelo um instrumento de valorização de um produto identitário, com potencial para gerar impactos culturais, sociais e económicos significativos na região.
Promover a Rosquilha não significa apenas celebrar um doce tradicional — é também a afirmação da história, da cultura e do futuro de Argozelo.
Referências bibliográficas:
Franzoni, E. (2016). A gastronomia como elemento cultural, símbolo de identidade e meio de integração. Tese de mestrado, Universidade Nova de Lisboa.
Lopes, C. (2025). Estratégias de desenvolvimento cultural – Olhares, discursos e políticas: Bragança vs Zamora. Tese de doutoramento. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Prieto, N. (2024). A comida conta histórias – Gastronomia como uma expressão cultural. Tese de mestrado. ISCTE.
Carina Lopes