Cooperação transfronteiriça: Rio de Onor inspira diálogo entre portugueses e espanhóis

A aldeia transfronteiriça de Rio de Onor, em Bragança, pôs portugueses e espanhóis a dialogar num encontro proporcionado pelo Hay Festival de Segóvia, o maior festival literário de Espanha, que junta artistas de vários países.

A edição de 2022 está programada para os dias 15 a 18 de setembro, na cidade espanhola, e é antecedida por vários eventos, quase todos na província de Castela e León e apenas um em Portugal, que ocorreu a 23 de junho, em Rio de Onor.

A aldeia portuguesa, onde nunca existiram fronteiras e é possível ter um pé em Portugal e outro em Espanha, não se distingue da “gémea” Rihonor de Castilla, e ao convívio habitual dos menos de 70 habitantes (50 portugueses e 18 espanhóis), juntaram-se hoje entidades dos dois lados da raia.

O encontro resultou de um dos “Diálogos com a Terra”, promovido pelo Hay Festival Segóvia, e foi organizado no âmbito do Focus on Portugal, em parceria com a Embaixada de Portugal em Espanha e o Turismo de Portugal.

Os participantes fizeram uma “Viagem poética entre Portugal e Espanha”, com o jornalista e escritor Agustín Remessa, e conheceram algumas das atrações da paisagem e história da aldeia comunitária, considerada uma das “sete maravilhas de Portugal”.

No interior de Portugal “onde muito pouca coisa acontece, é de extrema importância levar Rio de Onor ao mundo” para o presidente da junta de freguesia, Mário Gomes, e continuar com a cooperação entre os dois lados da fronteira, “que tem sido pouca, embora se fale muito”, como disse.

“A culpa de não haver cooperação transfronteiriça não é das pessoas, há poucas e as que há têm vontade de fazer, e vimos hoje aqui senhoras com mais de 70 anos a fazerem uma fornada de 20 pães de forma completamente voluntária. O problema está, se calhar, na vontade política”, salientou.

O embaixador de Portugal em Madrid, João Mira-Gomes, esteve presente e considerou que o encontro de hoje “significa um exemplo muito concreto” daquilo que está a ser feito no âmbito da estratégia comum de desenvolvimento transfronteiriço, “que é dar vida a estas aldeias da raia”.

“E, neste caso concreto, não podíamos ter um exemplo mais concreto do que o que é uma aldeia arraia, do que Rio de Onor”, frisou.

Envolvida na iniciativa esteve também a representante do Turismo de Portugal em Espanha, Maria de Lurdes Vale, que explicou que o objetivo de levar a Rio de Onor ”um festival que se faz em várias cidades do mundo e em Segóvia todos os anos, que mobiliza 75 mil pessoas”, foi que este “pudesse ter um braço em Portugal”.

“É uma forma de darmos a conhecer a cultura, as tradições e os espaços e que as pessoas que vão ao festival, também passem aqui em Rio de Onor”, afirmou.

A comitiva deslocou-se de Madrid no comboio de alta velocidade espanhol, o AVE, até Zamora e, dali, de autocarro até Portugal, para mostrar que está muito próximo de Espanha, “desde que haja boas ligações”.

A verdade, como reconheceu, é que demoraram uma hora a chegar de Madrid a Zamora e mais tempo na viagem até Rio de Onor, que tem uma estação do AVE espanhola, a menos de 40 quilómetros, em Puebla de Sanábria, mas que não tem os horários que pretendiam.

“Também é uma forma de mostrar que é preciso ter boas ligações para que as pessoas possam conhecer melhor as aldeias e estes sítios maravilhosos que temos na raia”, constatou.

O presidente do Turismo Porto e Norte de Portugal, Luís Pedro Martins, associou-se à iniciativa salientando que também faz parte da estratégia deste organismo “uma maior relação com as regiões transfronteiriças, com a Galiza e com Castela e Leão”.

A diretora do Hay Festival de Segóvia, Maria Sheila Ckremashi, ficou “encantada” com Rio de Onor, destacando que “a aldeia representa parte do conceito do que é o festival, que é o mundo rural, a sustentabilidade e o regresso à natureza”.

“Encontramos um lugar mágico, de uma beleza, de uma elegância que é única no mundo, por favor cuidem deste lugar”, sublinhou.

A responsável salientou ainda que a aldeia “tem muito a ver com a origem” deste festival, que nasceu em Gales, no Reino Unido, há 35 anos, numa zona fronteiriça com Inglaterra.

Em setembro, Portugal volta a estar presente no festival, em Segóvia, com um dia que lhe é inteiramente dedicado – dia 18 -, e em que estarão em destaque nomes como a artista plástica Joana Vasconcelos e, nas “leituras”, Florbela Espanca, Tolentino Mendonça, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner, entre outros.

Durante os quatro dias do Hay festival Segóvia há leituras, palestras, debates sobre livros, exposições, e outras atividades de interesse cultural em vários espaços da cidade espanhola.

Fonte: Lusa

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