XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM

Romper a indiferença

Am 6, 1a.4-7 / Slm 145 (146), 7-10 / 1 Tim 6, 11-16 / Lc 16, 19-31

Há quem creia que há somente um grande facto inescapável nas nossas vidas, um único e grande evento que a todos nos irmana: a morte. Se, ao nascer, as sortes podem ser desiguais, alguns creem que na morte todos teremos a mesma medida. Fraca imaginação a destes nossos irmãos.

Pela ressurreição de Jesus, nós confiamos que a vida continua para lá da morte. E nesta parábola do rico e de Lázaro somos confrontados com as consequências das nossas vidas, não como castigo dos maus ou recompensa das vítimas, mas sim como destinos distintos aos quais chegamos pelos caminhos trilhados nesta terra.

Lázaro, homem pobre e coberto de chagas, que ao serem lambidas por cães se encontrava num estado de impureza que o impedia de entrar no Templo, vivia a sonhar com as sobras que caíam da mesa do rico. Após a sua morte, ele continua a ter um nome pelo qual pode ser chamado e está junto de Abraão e, imaginamos, dos outros justos de Deus. Por seu lado, o rico à porta do qual Lázaro estava sentado, aquele que viveu na abundância, cego ao sofrimento dos demais, vê-se desprovido de nome próprio e esquecido na mansão dos mortos.

Entre ambos, como diz Abraão, há um grande abismo. Este é o abismo da indiferença, cavado pelo rico em vida e no qual agora vive desterrado.

Podemos alimentar a ilusão de que nós nunca nos encontraremos nessa situação. Mas este risco é real. Quantas são as dores e as necessidades do mundo às quais, todos os dias, decidimos fechar os nossos olhos e ouvidos e, pior ainda, o nosso coração, para evitar sermos contaminados pela dor dos nossos irmãos? Quantas justificações encontramos para aquietar a nossa consciência?

Imaginamo-nos ser justos como Lázaro, aquele que passa por esta terra sofrendo. E sim, talvez tenhamos algo de Lázaro. Contudo, temo constantemente que, mais do que Lázaro, sejamos um dos cinco irmãos do rico, por quem ele intercede pedindo que o enviem a alertá-los, uma intercessão que encontra junto de Abraão uma resposta cortante: «se não dão ouvidos a Moisés nem aos profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos».

Romper com a nossa indiferença é desafio de todos os dias. E é provável que tenhamos, nos ângulos mortos da nossa vida espiritual, deixado ao abandono tantos «Lázaros» como este, cuja dor se agudiza graças à nossa indiferença. E, entretanto, Cristo ressuscitou. Já nos deixámos convencer que o que fazemos nesta vida ecoa na eternidade?

Que o Senhor abra os nossos corações ao auxílio dos irmãos.

Fonte: Rede Mundial de Oração do Papa

https://www.redemundialdeoracaodopapa.pt/meditacao-diaria/1833

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