Entrevista: «A vitivinicultura está subaproveitada no planalto mirandês» – presidente da cooperativa agrícola Ribadouro, C.R.L., Óscar Afonso

Setembro é habitualmente o mês das vindimas, uma das tradições agrícolas mais populares do nosso país. Esta tradição atravessa gerações e mobiliza famílias inteiras, adultos, jovens e até crianças. Fomos até Sendim, conhecer a cooperativa agrícola Ribadouro, que no dia 16 de setembro começa a receber as uvas dos vitivinicultores da região.

Terra de Miranda – Notícias: Estão a iniciar-se as vindimas e a cooperativa Ribadouro vai abrir portas para a receção das uvas no dia 16 de setembro. Nesta campanha das vindimas, quais são as vossas previsões de colheita de uvas no planalto mirandês?

Óscar Afonso: Tendo em consideração a seca que assolou a região, temos a expectativa de que haja uma diminuição na produção de vinho face ao ano passado. E em relação à qualidade, estamos mais otimistas dada a chuva que caiu recentemente, o que propiciou uma melhor maturação das uvas.

T.M.N.: A cooperativa Ribadouro, localizada em Sendim, é o maior produtor de vinhos do planalto mirandês.Que importância tem esta cooperativa para os vitivinicultores desta região?

O.A.: Efetivamente, a cooperativa Ribadouro é o maior produtor de vinhos do planalto mirandês e até da região de Trás-os-Montes. A produção de vinho é uma das atividades económicas existentes nesta região e, por isso, é importante para a fixação de população. Considero que a cooperativa tem uma importância determinante, dado que acolhe uvas de cerca de 800 associados. Na sua maioria, são agricultores da região, ou seja, aos concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso.

T.M.N.: Nesta região, é fácil ou difícil contratar trabalhadores para o trabalho das vindimas ? E quanto se paga por dia de trabalho, no decorrer da vindima?

O.A.: Dado o despovoamento e o envelhecimento que assola o território, é cada vez mais difícil contratar trabalhadores para o trabalho agrícola e, por conseguinte, para as vindimas. Segundo consta, o valor de um dia de trabalho ronda 50 euros.

A produção de vinho é uma das atividades económicas existentes nesta região e, por isso, é importante para a fixação de população.

T.M.N.: Com o referido envelhecimento dos agricultores e o despovoamento desta região, ainda há jovens que se dedicam ao cultivo da vinha e à produção de vinho?

O.A.: Esta atividade tem subsistido sobretudo graças à tradição familiar, na qual os pais transmitem aos filhos o gosto pela vitivinicultura. Em termos agrícolas, o vinho é o produto mais competitivo da nossa região e revela vantagens comparativas. Espero que as entidades nacionais e sobretudo as locais, onde deposito mais esperança, queiram e saibam apoiar este setor.

T.M.N.: Desde a vindima à comercialização do vinho, que responsabilidades assume a cooperativa Ribadouro?

O.A.: A cooperativa compra as uvas aos produtores, transforma-as em vinho e, tendo em conta a qualidade resultante, uma parte é vendida a granel (geralmente o vinho de menor qualidade), e o restante é vendido engarrafado como vinho de mesa, regional e doc. Em qualquer caso, todo o processo é realizado na Ribadouro.

T.M.N.: Atualmente, a cooperativa tem quatro marcas de vinhos: “Pauliteiros”, “Mirandum”, “Lhéngua Mirandesa” e “Ribeira do Corso”. Quais são os vinhos mais procurados e apreciados?

O.A.: O vinho mais procurado é claramente o “Pauliteiros”. E o mais apreciado é o vinho “Ribeira do Corso”. O primeiro compete pelo preço e o segundo pela qualidade.

O vinho “Pauliteiros” é o mais procurado da cooperativa Ribadouro.

T.M.N.: Que qualidade têm os vinhos?

O.A.: Atualmente, a Ribadouro produz cerca de 2 milhões de litros de vinho, por ano. E os nossos vinhos têm uma qualidade que pode ser potenciada. Pena é que a cooperativa, atualmente, não disponha dos equipamentos necessários para produzir vinho de melhor qualidade. É com tristeza que digo que a cooperativa foi votada ao abandono pelas entidades nacionais e locais durante inúmeros anos. E quando abandonaram a cooperativa estavam implicitamente a abandonar também o território.

T.M.N.: Para onde vendem os vinhos produzidos pela Ribadouro?

O.A.: Os principais mercados dos vinhos da Ribadouro são o nacional, Brasil, França e Angola.

T.M.N.: Os dois anos de pandemia prejudicaram seriamente o mercado da restauração e da hotelaria, setores fundamentais para a comercialização do vinho. Como enfrentou a cooperativa Ribadouro esta enorme contrariedade?

O.A.: Com muitos sacrifícios, pois a procura de vinhos embalados caiu quase para zero. E nessa altura, quando a cooperativa mais precisou de ajuda das entidades locais e nacionais não obteve qualquer apoio.

T.M.N.: A par do que acontece em todo o setor agrícola, o cultivo da vinha e a produção de vinho tem evoluído. No concelho de Miranda do Douro, há a necessidade de modernizar as cooperativas. Do que precisa a cooperativa Ribadouro para se tornar uma organização mais moderna e eficiente?

O.A.: No fundo, precisa de uma profunda remodelação, com novos equipamentos e novas condições estruturais. Felizmente, temos um executivo camarário que é sensível ao problema da modernização da cooperativa Ribadouro e está a ajudar-nos nesse sentido.

“A cooperativa agrícola Ribadouro precisa de uma profunda remodelação, com novos equipamentos e novas condições estruturais.”

T.M.N.: Na recente assembleia geral da Ribadouro, realizada a 11 de setembro, os associados aprovaram um pedido de empréstimo de 200 mil euros para financiamento da cooperativa. Para que vai servir esse empréstimo?

O.A.: O empréstimo vai servir para reconverter dívida existente, de curto prazo a taxa de juro cara, por dívida de mais longo prazo e a custo mais barato. Por outro lado, o empréstimo servirá ainda para enfrentar problemas casuísticos e inesperados.

T.M.N.: Como já referiu, o setor vitivinícola, para além do valor económico que gera, é importante na região, pois cria oportunidades de emprego e contribui para a fixação de pessoas no mundo rural. No entanto, aqui no planalto mirandês, não se veem assim tantas vinhas. Pergunto se a vitivinicultura é uma produção subaproveitada no planalto mirandês?

O.A.: A vitivinicultura é efetivamente uma produção subaproveitada no planalto mirandês, porque não produzimos o vinho com a qualidade que está ao nosso alcance, em resultado do desinvestimento no sector. Não obstante as dificuldades, quando a nossa direção entrou em funções, as uvas eram pagas a cerca de 20 cêntimos/quilo e hoje ronda os cerca de 40 cêntimos. Ainda é pouco, bem sei, mas para pagar melhor aos agricultores precisamos de melhorar a qualidade do vinho. E para isso há que dotar a cooperativa dos equipamentos necessários.

“A vitivinicultura está subaproveitada no planalto mirandês, porque não produzimos o vinho com a qualidade que está ao nosso alcance, em resultado do desinvestimento no sector.”

Perfil

Óscar Afonso é natural de Sendim e assumiu a presidência da cooperativa agrícola Ribadouro, C.R.L., em 2016.

Licenciou-se em Economia pela Universidade do Porto, em Julho de 1991.

Em 1997, concluiu um mestrado em Economia.

Obteve o Doutoramento em Economia, na Universidade do Porto, em dezembro de 2004.

Desde 2012, é professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEUP).

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