Seca: Criadores de gado já combatem as alterações climáticas na serra do Alvão 

A seca fez soar as campainhas de alarme no país, mas na serra do Alvão criadores de gado e investigadores já estão juntos num projeto que visa combater e adaptar a pecuária extensiva às alterações climáticas.

Nesta serra do distrito de Vila Real a falta de água ainda não está a provocar constrangimentos, mas as preocupações aumentam a cada dia que passa sem chover.

O Casal da Bouça, na aldeia de Souto, em Vila Pouca de Aguiar, transformou-se numa área de demonstração ligada ao projeto Life Maronesa, que dispõe de um financiamento de cerca de dois milhões de euros, comparticipado em 55% pela União Europeia, e se estende até 2025.

“Nós não conseguimos produzir água, não se trata disso, nós conseguimos é, através do nosso maneio e do aumento da camada de matéria orgânica, através do pastoreio dos animais, aumentar a capacidade de retenção de água nos solos”, afirmou hoje à agência Lusa o criador de gado maronês Tomy Ferreira.

O objetivo é adaptar a pecuária extensiva às alterações climáticas, através de práticas de maneio que permitem ser “mais resilientes”.

Para o efeito, pretende-se, explicou, “aumentar a produtividade das pastagens e dos lameiros, através de ações de correção dos solos, com calcário e fósforo, a criar charcas e pontos de retenção de água para quando há escassez”.

“No fundo isto é um pastoreio muito natural, em que os animais andam sempre livres e temos um ciclo fechado de produção dos recursos, ou seja, tudo o que é consumido acaba por ser produzido na exploração”, afirmou Tomy Ferreira.

No Casal da Bouça há cerca de 130 vacas e novilhas em regime extensivo, ou seja, os animais andam a maior parte do tempo ao ar livre entre a serra do Alvão e os lameiros.

“Neste momento estamos a gastar mais forragens do que seria numa situação normal. Mas, o nós termos estas forragens vem do facto de estarmos precisamente a aumentar a produtividade dos lameiros, ou não teríamos essa capacidade”, acrescentou o produtor.

Para além dos produtores, o Life Maronesa envolve ainda a associação florestal Aguiarfloresta, que é a coordenadora do projeto, e tem o acompanhamento técnico e científico do Instituto Politécnico de Bragança (IPB).

Juliana Salvação, a gestora do projeto, referiu que se pretende replicar as “boas práticas” em outros baldios que fazem parte do Life, em Mondim de Basto, Ribeira de Pena e Vila Real, concelhos que são “solar” da raça autóctone maronesa.

“Os produtores estão a implementar infraestruturas e modos de gestão dos animais para aumentar a resiliência das explorações às alterações climáticas e ao impacto da diminuição da precipitação e do aumento do período das épocas estivais”, frisou a responsável.

E especificou que são ações de “gestão dos animais, de gestão da vegetação, de gestão da água” que estão a ser implementadas nos lameiros e nas áreas de montanha.

De concreto, exemplificou, estão a ser beneficiadas as charcas (nascentes) naturais, através do aumento destas infraestruturas para acumularem mais água durante épocas de chuva e aumentada a fertilidade dos solos.

“São como esponjas naturais que ajudam a acumular água na matéria orgânica”, frisou, destacando ainda o contributo do pastoreio para a redução do risco de incêndios florestais.

António Manuel é criador de 120 vacas maronesas e de 250 cabras bravias, em Cabanes, Vila Pouca de Aguiar, e faz também parte do projeto.

“Quanto mais pastoreamos mais os terrenos ficam férteis e mais pasto há para o gado. Com este projeto queremos demonstrar que, se olharmos pela serra, pelos terrenos, conseguimos ter outra rentabilidade e mais animais a viver connosco”, referiu.

Neste trabalho, que é feito ao ar livre, o olhar dos criadores está sempre apontado ao céu. “A ver se chove. Mas ela vai vir, vai vir”, salientou António Manuel.

Fonte: Lusa

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