Padre José Francisco João Fernandes

Do isolamento da aldeia à gratuidade do serviço aos outros

O Padre José Francisco João Fernandes é um mirandês que tem contribuído para a preservação e divulgação de língua e cultura mirandesa, tendo nascido em Cicouro a 18 de novembro de 1920, foi um dos primeiros alunos a completar a quarta classe e o primeiro a concluir um curso superior.

O Padre Zé, como é afetivamente conhecido e tratado, começou a falar o mirandês aos quatro anos. Aos 12 anos, teve que aprender a falar o português, a “fala fidalga”, diz, e a relegar para segundo plano o mirandês, uma língua sobre a qual lhe diziam: “essa fala não serve para nada”.

Após a conclusão do exame da 4ª classe, entrou para o seminário dos Salesianos, em Poiares da Régua, graças à insistência da avó, que lhe disse: “Podias ir lá ver e experimentar. E se não te agradar, regressas a casa”. Assim fez, e a 10 de outubro de 1933 entrou no seminário, onde encontrou um mundo totalmente diferente do que conhecia até então. Enquanto na aldeia, as pessoas viviam só em função dos próprios interesses, do “toma lá, dá cá”. No Seminário, pelo contrário, descobriu que existiam pessoas que viviam a gratuidade, que procuravam o diálogo, que eram próximas e amigas. Ao descobrir este novo mundo disso para consigo: “Isto agrada-me! E já não saio daqui!” Nesse primeiro ano no seminário teve boas notas, “porque estava sempre atento”, revelou. Nas férias o pai preguntou-lhe: “Querer continuar no seminário?” Ao que respondeu sem hesitar: “Quero, sim!”. Agora que tinha descoberto um mundo totalmente diferente e melhor já não queria regressar atrás.

E foi este percurso no seminário que fez dele, padre, professor, escritor e poeta. Desenvolveu m um particular gosto pela leitura e pela escrita. É autor, entre outras obras, de “La mona l Maio – Cuontas de la Raia i de l Praino” – edição bilingue. Neste livro, José Francisco João Fernandes (o Padre Zé) apresenta uma série de contos, originalmente escritos em português, há cinquenta anos, mas são contos vividos em mirandês, por gente que apenas sabia falar nesta língua. O mirandês era a língua utilizada em casa e na aldeia, mas nunca entrou na escola. Os contos retratam uma aldeia raiana mirandesa, com memórias de pessoas que nasceram e cresceram no século XIX e de tradições perdidas no tempo. Meio século depois, Alcides Meirinhos, conterrâneo do Padre Zé (ambos nasceram em Cicouro, concelho de Miranda do Douro), traduziu os contos para a língua em que o autor gostaria de os ter escrito. “

Ao longo dos seus 100 anos de vida, o Padre Zé, recorda com espanto, que viveu grandes mudanças. Nas décadas de 1920/30, diz que o modo de vida era tão fechado que viver era muito difícil.  E dá o exemplo, das fronteiras entre Portugal e Espanha, que estavam fechadas e o comércio entre países era mesmo proibido. Nesse tempo havia pouco dinheiro e as trocas comerciais eram realizadas em géneros.

Só após a segunda guerra mundial (1939-1945), é que as nações se abriram ao diálogo e à cooperação entre elas. Foi assim que começou a desenhar-se a União Europeia. A partir de 1950, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço começa a unir económica e politicamente os países europeus, tendo em vista assegurar uma paz duradoura. Os seis países fundadores são a Alemanha, a Bélgica, a França, a Itália, o Luxemburgo e os Países Baixos. Esta união possibilitou o comércio entre países, que até então só era possível com as ex-colónias. Na década de 60, houve um grande fluxo de emigração portuguesa para França, país muito destruído pela  segunda guerra mundial, e que precisava de mão de obra para se reerguer.

Com esta abertura europeia, também a mentalidade das pessoas se foi abrindo. Até então, fechadas e egoístas, as pessoas tornaram-se mais abertas e solidárias. “A possibilidade das pessoas emigrarem para outros países, em busca de melhores condições de vida era algo extraordinário! – recordou o Padre Zé.

A festa do 100º aniversário do Padre José Francisco João Fernandes vai realizar-se no sábado, dia 21 de novembro, no Lar dos Salesianos, no Estoril (Cascais). A celebração vai iniciar-se com a Eucaristia, às 10h30. E depois segue-se uma conferência sobre os seus poemas, escritos em mirandês, e que estão a ser publicados.

Podcast, realizado por Alcides Meirinhos, da Associaçon de la Lhéngua i Cultura Mirandesa (ALCM).

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